Aprendi brincando

Amanhã, encerro mais uma temporada de trabalho voluntário. Graças à amiga paulista Andrea da Silva, pude vivenciar a rotina de duas instituições durante as férias escolares de verão da Suécia.

A primeira foi o Rapatac, onde a responsável Evelyn me recebeu com sorrisos largos e muita boa vontade. Uma ONG que tem como objetivo fazer a ponte entre a Suécia e o exterior ajudando imigrantes e refugiados em vários projetos.

Fundada por um senegalês e gerida por uma chilena, a equipe é completamente mista. Na recepção: uma finlandesa, nos serviços gerais: uma iraniana, no apoio: um iraquiano, na dinâmica com as crianças: um indiano e um sueco, no voluntariado: um senegalês, uma espanhola, uma inglesa, uma romena e uma brasileira (eu!). Só por essa pluralidade de nacionalidades e culturas já valia a experiência.

Mas aí chegam os grandes mestres: as crianças! São 67 atendidas com frequência e aproximadamente 40 nas férias de verão. A grande maioria é da Turquia e da Somália. Alguns representantes do Afeganistão e da Síria integram o grupo.

Foram três semanas de muito aprendizado. Com as crianças, aprendi algumas palavrinhas básicas em sueco para facilitar a nossa comunicação: Hej (olá), Hej Då (tchau), Tack (obrigado), Varsågod (de nada), Snälla (por favor), (sim), Nej (não). O suficiente para nos aproximarmos. No entanto, grande parte da comunicação era através de sorrisos, olhares, expressões, gestos ou através do nosso próprio idioma. Sim, nos entendíamos! Afinal, estávamos brincando.

E quem precisa de linguagem formal para brincar? 😊

Como eu era uma das facilitadoras das atividades internas, jogamos totó, sinuca, ping-pong, jogo da memória e cartas; montamos quebra-cabeças; desenhamos e dançamos; criamos e inventamos novos brinquedos com Lego; fizemos pintura em tecido (camisas e casacos), arte com papel (flores e borboletas) e arte de rua na calçada (com dança).

Principal aprendizado: Nem migrantes, nem refugiadas. Elas são, antes de tudo, crianças.

 

A segunda experiência foi na creche sustentável Kidzateljé com uma das educadoras mais incríveis e completas que conheci até agora: a indiana Shashi, que me acolheu como filha, compartilhou suas experiências, livros, refeições, crianças, família e amigos. Foi apenas uma semana, mas que me renderam preciosas lições para a vida.

É uma creche bilingue e independente, que funciona desde 2014 dentro da casa da Shashi (no norte de Gävle) e foi totalmente adaptada para receber crianças de 0 a 5 anos (pré-escola).

Desenvolve uma pedagogia baseada em projeto, onde o aprendizado da linguagem, matemática, habilidades motoras, criatividade, competência social, solidariedade e sustentabilidade é estimulado através de atividades práticas dentro do ambiente doméstico e na Natureza.

Incentiva a autonomia e a liberdade com respeito, onde as crianças podem brincar com produtos recicláveis fabricados por pequenos produtores, diversos materiais e livros multiculturais. A alimentação é consciente, preparada com produtos caseiros oriundos da agricultura familiar, sem muitos itens industrializados. Os bebês e as crianças ajudam a colocar a mesa, comem e fazem a higiene pessoal sozinhos e preparam suas próprias caminhas para tirar o cochilo da tarde.

A Shashi é multifuncional: educa, cuida, cozinha, organiza, limpa e se diverte com as crianças. A missão da sua creche é baseada neste lindo poema escrito por Robert Fulghum, que afirma que tudo que realmente vale a pena saber, ele aprendeu no jardim de infância (título original: All I Really Need to Know I Learned in Kindergarten, adaptado e traduzido por Pedro Bial neste vídeo).

No Kidzateljé, eu desenhei, pintei, cantei, dancei, brinquei… trabalhei e aprendi um pouco todos os dias. As imagens falam por si só. 😊

 

Gratidão, Andrea, Evelyn e Shashi por me proporcionarem essas experiências únicas com as crianças.