Ervas daninhas

É noite de lua cheia. Da minha barraca, na Ecoaldeia de Janas, tenho uma vista privilegiada: o Castelo dos Mouros, o Palácio da Pena e a lua. Todos brilhantemente iluminados. Alguns vagalumes também aparecem para enriquecer o cenário. Lá fora, diferentes sons. Os mais fáceis de identificar são os dos sapos e o do vento.

No meu mini colchão inflável, tento relaxar. Minhas costas doem. Foram dias abaixada realizando um trabalho manual no campo. Dias retirando as ervas daninhas que nascem espontaneamente e, aos poucos, vão sufocando tudo que foi semeado.

Identifiquei diferentes tipos: as espaçosas e visíveis; as que se contorcem para se esconder; as que imitam as semeadas; as lindas e floridas que eu morro de pena de tirar; as que tem uma raiz profunda e muitos braços; e as superficiais, bem fáceis de extrair. Independente da categoria, todas são danosas. Não são bem-vindas porque impedem a evolução e crescimento do que foi plantado intencionalmente.

Nas seis horas diárias imersas na natureza, trabalhando com a terra, tive a oportunidade de fazer várias reflexões e uma das principais foi a relação das ervas daninhas com a nossa vida.

Nós fomos semeados para crescer e darmos lindos, saborosos e aromáticos frutos. Ao longo da vida, surgem várias ervas daninhas para bloquear o nosso desenvolvimento enquanto espécie. Muitas delas são enraizadas desde a infância, quando a família e/ou a escola sufocam a beleza, o sabor e o aroma da nossa essência, dos nossos frutos naturais. Essas ervas costumam se contorcer para encontrarem um cantinho bem difícil de serem identificadas. No meu entendimento, é a mais danosa. Muitas vidas estão secas e sufocadas por elas.

Depois, vem a sociedade com as lindas e floridas daninhas, fomentando a política do consumo, do glamour e da competição. Estas têm raízes profundas e muitos braços e, na maioria das vezes, são espaçosas e bem visíveis, mas difíceis de extrair. Sufoca vagarosamente grande parte da população.

Há dois anos, comecei o trabalho de extração das ervas daninhas que apareceram na minha vida. Fui tirando lentamente uma a uma. Tarefa difícil e minuciosa. Precisei de ajuda. Pedi e recebi várias. Ahooo!

Hoje, respiro livremente. Consigo ser regada, nutrida e evoluir. Consigo sentir o sabor e o aroma dos meus próprios frutos. Sorrio! Sinto imensa gratidão por ter tido a oportunidade de recuperar a minha essência, de me conectar com a minha semente.

Quero mais! Quero voar pelo campo da humanidade e ajudar a extrair as ervas daninhas que sufocam tanta gente. Quero contribuir para o resgaste da boa essência do ser humano.

Se eu conseguir recuperar uma semente, já terei cumprido a minha missão.

Você já tentou identificar as suas ervas daninhas?