Quem mandou não estudar?!

Esta frase passou pela minha cabeça algumas vezes enquanto eu executava minhas primeiras atividades voluntárias na Dinamarca. Famosa no Brasil, essa sentença é comum em conversas informais entre pessoas insatisfeitas com sua profissão, por executarem serviços braçais, cansativos e que exigem, em sua grande maioria, força e repetição. Nas minhas andanças pelo Rio e por outras regiões do país, já ouvi essa questão entre trabalhadores rurais, garis, empregadas domésticas, babás, auxiliar de serviços gerais, caseiros, porteiros, jardineiros, pedreiros… todos que eu, particularmente, tive a oportunidade de conversar e escutar atentamente. Bastava um reclamar do trabalho que lá vinha o colega com o julgamento: “Quem mandou não estudar?!”.

Geralmente, estes profissionais associam que não tiveram escolha pelo fato de não terem estudado. Se tivessem tido oportunidade, estariam ocupando uma das profissões classificadas pela sociedade como as “de elite”.

É claro que existem as exceções. Conheço algumas inclusive. Aproveito a breve pausa para aplaudir toda essa turma cujo trabalho eu valorizo demais!

Mas o que isso tem a ver com a Dinarmarca??? Já já eu conto. Tem relação com a Suécia também. Permitam-me introduzir primeiro como foram meus últimos dez dias.

Depois de 15 horas de viagem, finalmente cheguei à Ecovila Friland. Percebi já na caminhada até a casa da Micha, minha anfitriã, que a comunidade é realmente sustentável devido à diversidade de construções naturais. É uma verdadeira escola de permacultura. Os telhados criativos foram os que mais me chamaram atenção. Passo horas observando cada um deles e sonhando em construir um igual.

   

Micha é uma dinamarquesa de porte grande, extremamente forte por dentro e por fora. Mulher empoderada, que acredita que somos capazes de produzir uma energia interior fortemente capaz de nos proteger de qualquer perigo externo (compartilhou inclusive algumas experiências pessoais onde usou seu superpoder). Sonha em viajar o mundo contando boas histórias e usando diferentes ferramentas de jogos para integrar as pessoas de todas as faixas etárias (é especialista em Team Building, um serviço bastante contratado pelo RH das grandes empresas). É super divertida. Tem vivências muito engraçadas para contar e não é nem um pouco reservada na hora de rir. Esbanja altas gargalhadas contagiantes. Aos poucos, fui conhecendo suas histórias de superação. Guerreira.

Possui uma filha de 11 anos, cujo ensino é doméstico. Ela própria ensina a filha. A prodígio Liv, que só anda com pés descalços para sentir a energia da Mãe Terra, tem três projetos simultâneos: produzir suas próprias roupas, fazer bolos de casamento e construir uma casa com papelão. Todos projetos já em andamento. Vivenciei os três (ela consertou um vestido meu inclusive). Viva a Liv!!!

 

Seu ex-marido, um dos fundadores da comunidade, viaja o mundo ensinando construções naturais. Depois que fui descobrir que ele, Steen Møller, é uma fera da permacultura e famoso em canais de TV.

Há 10 anos, Micha constrói sozinha duas casas. Eu ia ficar hospedada em uma delas e ajudá-la na construção, mas os planos mudaram porque ela finalmente conseguiu um comprador interessado em sua terra, cuja venda permitiria a realização do sonho de dar volta ao mundo com a filha. Por este motivo, as construções foram interrompidas e a minha ajuda seria na retirada de todo entulho e lixo acumulado nas duas casas e no terreno, tornando o local apresentável ao possível comprador.

 

Para acomodar-me melhor, ela me hospedou na casa do seu ex-marido que estava viajando com a filha. A casa é totalmente ecológica, com banheiro estilo tailandês/indiano cujo principal desafio é acertar o buraco. Ainda não cheguei nestes países, mas já iniciei o treinamento (risos).

 

Introdução feita, voltemos ao tema principal.

Lembram das profissões que listei? Aqui elas não existem. Eles fazem de tudo, não existe elite. Plantam, cozinham, limpam o bairro, a rua, a casa, o banheiro, constroem suas casas, cuidam dos filhos, do jardim, cortam lenhas, separam e carregam o seu próprio lixo. Eles têm uma casinha só de ferramentas com tudo que pudermos imaginar… o trailer para acoplar no carro também é um item quase que obrigatório por família, porque facilita a logística. Na Suécia, também pude vivenciar isso morando num bairro nobre por quase um mês. Ou seja, mesmo quem estuda muito, pega no pesado. E não tem idade nem sexo não… é o mesmo para todos.

Antes de continuar, reforço que tudo que escrevo não deve ser generalizado. Compartilho apenas minhas experiências pessoais.

Com chuva ou sol, estávamos lá nós duas retirando o lixo do terreno e das casas. Imaginem todo tipo de resíduo possível: madeiras de diferentes tipos e tamanhos (algumas o dobro de mim na altura e na largura), plásticos resistentes e outros nem tanto, vidros, metais, concretos, pedras, telhas, lonas, tecidos, isopor, armários e mesas de madeira nobre, utensílios domésticos, etc.

 

 

A tarefa inicial era remover todo o lixo e depositar no trailer (lembro-me que esta atividade lá em casa era feita pelo meu pai e meu irmão devido ao peso dos materiais. Eu nunca ajudei os pobres coitados. Perdoem-me, amados! Prometo que ♫ daqui pra frente tudo vai ser diferente ♫).

Esse foi o menor trailer que usamos e um dos mais leves (foi um dos últimos, quando consegui parar para registrar)

Quando recolhíamos os materiais, apareciam variados tipos de pequenos animais, como sapos, lesmas, minhocas, caramujos. Um verdadeiro desafio para um trabalho sem luvas. Ok, no segundo dia eu apliquei os conhecimentos adquiridos na área de segurança do trabalho e consegui um par de luvas. Boa menina!

Fiquei tão orgulhosa de mim: eu estava ali, aprendendo com uma dinamarquesa, que mulheres também podem fazer serviços pesados, que não é necessário terceirizar o serviço quando você tem saúde para fazer com as próprias mãos. Fizemos mais de dez viagens até o depósito de reciclagem (uma média de duas viagens por dia, já que a carga horária de um voluntário é de quatro horas).

Um parêntese especial para este depósito que existe há mais de 25 anos. Se eu achava que na Suécia o processo de reciclagem era desenvolvido, a Dinamarca me provou que existem processos ainda mais avançados. Pensem num imenso estacionamento com vários containers facilmente identificados por tipo de material, preparados para receber itens de qualquer tamanho. Nas numerosas viagens que fizemos, vi todo tipo de gente e faixa etária chegando com seus carros e separando o seu lixo. Este lugar me ensinou algumas lições:

  1. Como o ser humano é capaz de produzir lixo. Affe!
  2. Acumulamos, frequentemente, muitas coisas que não precisamos.
  3. O lixo de poucos pode ser o luxo de muitos (vi sofás, colchões, cadeiras, utensílios domésticos, aparelhos eletrônicos, lavadoras, bicicletas, patinetes, roupas, portas, janelas, barracas de camping, lonas… muitos itens em bom estado sendo descartados).
  4. A separação e destinação correta deste lixo traz alguma esperança.
  5. Lembram que eu estava orgulhosa de mim com o trabalho pesado realizado? Passou quando eu vi uma senhora de aparentemente 75 anos fazendo o mesmo sozinha e, em outra ocasião, um senhorzinho de quase 90 também sozinho).

   

Entre uma viagem e outra, descansávamos no carro rindo de nós mesmas e parávamos para fazer um delicioso lanche na casa verde com cachos de uvas doces e ameixas colhidas na hora.

 

Sempre que possível, tentava alguma conexão para avisar a todos que eu estava bem. A vontade era dizer que eu estava feliz carregando lixo. Mas preferi deixar pra lá… eu jamais conseguiria explicar em poucas palavras o que estava por trás desta atividade braçal e pesada.

Aparência da casa após a limpeza do terreno

Subi neste telhado duas vezes para ajudar a consertar o beiral (que ainda falta uma parte), lixar as telhas e passar óleo para protegê-las.